24 de fevereiro de 2015

A arte de contar histórias

Não me canso de ouvir histórias. Para mim, estão na lista das coisas mais importantes do mundo. Não me refiro à História que a gente aprende na escola, sobre o passado da humanidade – não que ela não seja importantíssima. Falo na verdade de histórias com s no final e com h minúsculo no começo mesmo. Histórias comuns, banais, daquelas que todo mundo tem pra contar.

Às vezes, andando pelas ruas, me surpreendo observando desconhecidos e imaginando quem são, de onde vieram, como chegaram ali. Começo a criar em minha cabeça uma verdadeira novela para cada um, sempre com muito drama e altos e baixos. Fico fascinada com alguns tipos que vejo por aí e acabo deixando minha mente maluca de tanto inventar. Me pergunto se algum dia vou ter a coragem de parar alguém em uma esquina e pedir para me contar sua história.

 
 
Eu, particularmente, sou uma ótima contadora de histórias. Tenho um caso para tudo. Certa vez, uma amiga disse que metade das coisas que eu falava incluía uma “longa história”. Acho que ela não exagerou. Conto pra qualquer um que se dispor a escutar sobre a cidade que nasci, a rua perigosa que morava, a escola que estudei, o filme que eu vi na semana passada, a couve-flor que fiz no almoço. Podem até não ser interessantes, mas que gosto de contá-las, ah, eu gosto sim.
Acho que aprendi com a minha mãe. Ela sempre foi uma profissional no assunto. Ontem mesmo gastou vinte minutos no telefone falando apenas sobre trabalho e as roupas que estava lavando, em um ritmo alucinante e cheio de explicações. Mas mais do que casos banais, ela povoou meu imaginário com um mundo desconhecido: o da própria infância e adolescência. Tenho lembranças de ainda criança ouvir minha mãe contar como era ser criança em seu próprio tempo, como era viver em uma família cheia de irmãos, como o mundo era simples e as brincadeiras mais divertidas. Escutei diversas vezes sobre como ela batia nos meninos da escola, sobre o cachorro chamado Piloto que cuidava dos pequenos donos, sobre a bondade e quase loucura de um avô que eu nunca conheci. Sempre que entro na casa de minha avó tento situar qual era o muro que minha mãe pulava, onde ficava a balança que ela caiu e coisas do tipo.
Gosto muito mais das pessoas que contam suas histórias. Acho que nunca falei para meu namorado, mas ele é um dos melhores contadores de histórias que já conheci, apesar de repetir muitas vezes os casos. Tenho um amigo que parece ter engolido uns livros de aventura e saído os arrotando por aí. Livros, na verdade, só me interessam pelo roteiro: não sou daquelas que morrem de amores por linguagem rebuscada e construção textual. Eu quero é a história! Acho que por isso acabo lendo títulos literariamente questionáveis às vezes.
O fato é que histórias são muito mais do que casos, lembranças e palavras unidas. São um pedaço de quem as conta. Admiro quem abre a boca e deixa sair um pouco de si, doando um relato da própria vida. Todo mundo tem uma história pra contar, desde que tenha vivido. E a melhor forma de saber quem uma pessoa é, é ouvir o que ela conta sobre si mesma, sobre sua experiência e relação com o mundo.

Nem sempre a gente tem só coisa boa pra contar. Às vezes, entretanto, quando contamos algo triste ou muito difícil de ser realizado, sentimos alívio, alegria por ter conseguido superar a situação. Costumamos rir de nós mesmos e aí está a maravilha da coisa. Quero ter sempre muitas, muitas histórias pra contar. E quero rir bastante no fim, gargalhar.

12 de fevereiro de 2015

A saga do guarda-roupa

Meu guarda-roupa não é um portal para Nárnia. Também não esconde nenhum bicho papão atrás da porta, ou um monstro simpático da Pixar. É um armário novo, industrial, recém montado. Mas nem por isso deixa de ser especial - além de roupas, ele guarda uma história. História não, uma saga. Olho para ele e penso na hora em problemas. E devo admitir que ele é mais legal por isso.

Não, o Snape também nunca saiu do meu armário.

A situação era das mais críticas. Mudança de casa, de cidade, de estado - aquela hora que você empacota  sua vida e a joga em uma mala. Tirar toda a tranqueira de volta e pendurar em algum lugar seguro é o primeiro indício de acolhimento em um novo lar. É o óbvio. Comprar um armário é uma das primeiras coisas a se fazer. E foi exatamente o que eu fiz.

Escolhi o produto que chegaria mais rápido, segundo o site de vendas. E ele foi entregue antes da hora, para a minha alegria. Tudo parecia perfeito até que... cadê os parafusos? Desempacotamos metros de papelão e plásticos, largando tábuas e ferragens por todo o quarto, e nada dos danados. Tínhamos tudo e não tínhamos nada. Corremos para o telefone, para emails de SAC. A atendente da loja até riu da nossa cara. Prometeram nos enviar os tão necessários preguinhos em 15 dias.

Um mês se passou e nada. A dignidade do meu novo quarto se foi. O cenário era devastador: camisas jogadas para todo lado, tênis e sandálias sobre bolsas, sacolas debaixo de shampoos e remédios, livros amassados e por aí vai. Não sobrou um centímetro para se colocar um pé.  As malas já cuspiam as roupas para fora, todas obviamente amassadas (aqui vale contar que eu ainda não tinha um ferro de passar. E nem um espelho. Logo, eu saía toda amarrotada de casa e só me dava conta do estado quando via meu reflexo nos vidros dos carros). Abrir a janela, nem pensar: as tábuas se balançavam com o vento e ameaçavam cair como um dominó. Um perigo.

Depois de mil emails e telefonemas raivosos, comecei a achar que os parafusos jamais chegariam. E no fundo, nem chegaram: na pressa, acabei retirando a encomenda direto nos Correios. E agora era uma questão de honra: nós mesmo montaríamos o safado do guarda-roupa. Apesar de ser filha de marceneiro, jamais parafusei alguma coisa. Já até bati um preguinho aqui e ali, mas só. Meu namorado até ensaia montar celulares e drones e eletrônicos, que obviamente não tem nada a ver com madeira e são mil vezes menores. Confiar no manual de instruções poderia levar a um verdadeiro desastre, já que ele parecia ter sido escrito por um estrangeiro que nunca ouviu falar em vírgulas e concordância verbal.

Compramos uma parafusadeira e aceitamos o desafio. Começamos às 17h30 da terça, terminamos às 15h da quarta. Mal comemos, dormimos pouco. Esquecemos de carregar a parafusadeira e acabamos tendo de parar a cada dez minutos para ligá-la à tomada. Bati pregos, parafusei, desparafusei, prendi meu dedo, gritei. Briguei com meu namorado, fui grossa, dei ataque de risos, bebi uma Heineken. Deitei no chão e trabalhei igualzinho mecânico debaixo de carro. Nas horas em que não aguentava mais carregar peso, eu gritava o coleguinha do quarto ao lado, em pânico.

Segundo o manual, apenas uma pessoa seria capaz de montar o armário em duas horas. Eu e o André gastamos quase vinte (e chegamos à conclusão que só o Batman poderia levar menos tempo sozinho). Apesar da dor nas costas e na bunda, das unhas quebradas e do cansaço, admito que me senti muito feliz. Capaz. Pode parecer bobagem, mas foi um desafio que conseguimos resolver, apesar da dificuldade. Yes, we can.


Nem o guarda-roupa que leva para Nárnia é tão legal.

Gosto de dar o real valor às coisas. A falta de um armário estava me deixando maluca. Sou uma pessoa mais feliz agora, não me recriminem. Talvez, se o dito-cujo tivesse chegado completo há um mês e fosse facilmente montado por um profissional (esqueci de contar que contratamos um montador logo no primeiro dia e que foi ele quem descobriu a falta dos parafusos, o que até levantou um pouco de desconfiança), ele não faria nenhuma diferença em minha vida além de guardar minhas coisas. Ele seria um armário, apenas. Não é mais.

1 de fevereiro de 2015

Porque hoje eu acordei rica

Hoje eu acordei e estava muito rica. Bilionária. Em um passe de mágica, me vi cercada de ouro, deitada em uma cama macia e em travesseiros de pena, em um quarto muito grande e claro, com enormes janelas de cristal e cortinas de seda. Pensei que fosse um sonho, esfreguei os olhos. Levantei. Caí da cama ao calcular mal o tamanho do colchão king size.

Trouxeram-me suco, frutas, água do Monte Fuji, croissants. Chamaram-me de madame, poliram minhas unhas. Pedi um cafezinho e me trouxeram capuccino. Perguntei se tinha um biscoito e já me atiraram cookies. Depois levaram tudo embora de uma vez para não estragar minha dieta - "A madame precisa emagrecer três quilos", uma moça loirinha maquiada censurou.


Essa mesma menina magrinha me empurrou para um closet. Foi logo passando os dedos entre os cabides, puxando uma saia preta aqui, uma camisa azul lá, um vestido verde ali. Escolheu uma camisa de botões e panos finos e uma calça larga e jogou tudo em minhas mãos. "Já pode se vestir", ela disse, enquanto procurava um sapato entre as centenas de pares. Tentei dizer que aquela calça era terrível, mas ela continuava falando e falando sobre a marca de uma sandália francesa que havia acabado de comprar. Para mim. Ela me atirou um scarpin e correu para a sessão de joias, animada. 

Saí de casa com um peso enorme no pescoço. Colar de ouro e safiras da Polinésia oriental. Escorreguei na escada de mármore e lutei para me equilibrar sobre os 15 cm de salto. Estranhei o reflexo de uma dúzias de espelhos pelo caminho, que pareciam refletir outra pessoa. Cheguei na porta e fui logo questionada por um senhor de uniforme: "Qual carro irá usar hoje, madame?"

"Posso dar uma olhadinha antes de escolher?" arrisquei perguntar. Com um sorriso, o velho me levou ao elevador. Quando as portas se abriram, no subsolo, deixei meu queixo cair: Mercedes,  Bentleys, Ferraris e Audis. No final da terceira fila de carros, encontrei um Porsche vermelho conversível e, rindo feito criança, disse logo que queria aquele. "Me desculpe, Madame, mas é muito perigoso andar exposta na rua, sem qualquer proteção". Concordei e pedi as chaves de um BMW que parecia bastante seguro.  "Nada disso, Madame. É altamente perigoso dirigir nesta cidade e a senhora pode se machucar. Além disso, este é o meu trabalho", censurou o senhor, de sobrancelhas arqueadas e olhar inquisitor. Obediente, sentei triste naquele táxi.

Atravessamos a cidade em uma velocidade controlada. Os vidros da janela eram travados e o motorista não deixou abrir nenhuma frestinha para pegar ar puro: "Do que adianta ser blindado se a madame abrir?". O ar condicionado congelava meus ossos. Descobri um frigobar debaixo do banco e peguei uma cerveja artesanal.

Quando chegamos a não sei onde, dois gigantes de terno abriram minha porta, tiraram a cerveja das minhas mãos e me escoltaram para dentro de um enorme prédio de vidro preto. Entrei desconfiada e percebi que todos sorriam para mim. Sorrisos frios e amedrontados. Não sorri de volta para ninguém e fui jogada em um elevador. Muitos andares depois, cheguei em uma sala ricamente mobiliada, com obras de arte do Romero Britto na parede. Sentei na mesa da presidente e abri uns papeis. O que esperavam de mim, afinal?

O telefone tocou o tempo inteiro. No fim do dia, eu havia comprado três mil barris de petróleo do Afeganistão, negociado um arranha céu com um sheik de Abu Dhabi e vendido uma filial de uma fábrica de qualquer coisa na China. Também despedi duzentos chineses que amarravam cadarços de tênis em outra fábrica, o que, segundo meu consultor, equivalia a apenas uma pessoa na Inglaterra (tentei me consolar com essa regra matemática). Assisti a uma exibição 3D de tênis que se amarravam sozinhos e especulei na bolsa de Nova York títulos imobiliários da Espanha, a uma verdadeira pechincha. Descobri que agora tinha um castelo medieval.

Fui embora às onze da noite, sentindo a cabeça esmagada de dor. Arranquei os sapatos no carro e abri o zíper daquela calça horrorosa. Mas meu lindo carro de vidros blindados não seguiu para casa. Parou em frente a uma mansão azul, sem qualquer explicação. As portas se abriram, os grandalhões me puxaram para fora. A moça loirinha apareceu carregando pincéis e paletas de maquiagem. "Você está hor-rí-vel!" ela xingou, enquanto enchia minha boca de batom.

Antes que eu pudesse ver, estava em um enorme salão de festas adornado por lustres de cristais e lírios brancos. Segurava nas mãos uma taça de champagne e conversava com mulheres de cara esticada e peitos de plástico. Todos falavam sobre golfe ou maldiziam um partido de esquerda que tinha chegado ao poder graças aos analfabetos de cabelo sujo. Um garçom me ofereceu escargot. Comi um pouquinho segundos antes de ser convidada a discursar em agradecimento à doação de mil litros de shampoo.

Cheguei em casa cansada. Quebrei o salto, perdi duas safiras do colar. Esfomeada, corri para a cozinha, roubei uma paleta mexicana e engordei três quilos. Sem tomar banho, me atirei na cama de molas cobertas por lençóis brancos de mil fios. E antes que meus olhos se fechassem, rezei para acordar de volta em minha kitnet de 35m².

27 de janeiro de 2015

Duas visões para o fim do mundo

Alerta: possíveis spoillers!

Não tem como comparar dois filmes tão diferentes como Melancolia (2011) e Procura-se um amigo para o fim do mundo (2012). O primeiro, dirigido pelo aclamado e controverso Lars Von Trier, é ácido, profundo, contemplativo. O outro, da iniciante Lorena Scafaria, não se leva muito a sério e, despretensiosamente, é divertido e irônico. São duas obras tão distintas quanto água e óleo. Mas não dá pra negar que, além da temática ser a mesma, ambos também acabam no fundo falando da mesma coisa.

O apocalipse está próximo. Um cometa vai cair na Terra em pouco tempo e não há nada a se fazer quanto a isso. Esta premissa resume bem a situação dos dois filmes. Enquanto em Melancolia a confirmação da catástrofe acontece horas antes da colisão, em Procura-se um amigo para o fim do mundo somos avisados logo de início que não há mais saída.  Mas, apesar de todo enredo apocalíptico, nenhuma das duas obras pretendem realmente falar sobre isso - o fim do mundo é apenas um plano de fundo. O que ambos discutem é muito maior - como o ser humano reage frente à morte iminente?

Melancolia

"Nenhuma pessoa deveria saber o dia da própria morte, isto não é normal", afirma um personagem de Procura-se um amigo para o fim do mundo. Com esta premissa, acompanhamos os últimos dias de uma família rica, no filme de Las Von Trier, e de um casal recém conhecido no primeiro filme dirigido  por Lorena Scafaria.

É interessante ressaltar que em Melancolia apenas a história de uma família é mostrada, sob a ótica de duas irmãs, Claire (Charlotte Gainsbourg) e Justine (kirsten Dunst). Claire é uma mulher preocupada, que luta pela sobrevivência e pela salvação do filho, enquanto Justine aceita a morte como solução para a falta de sentido da vida.  Não se sabe nada sobre o resto do mundo, sobre o caos que com certeza reina fora dos muros da mansão da família.

Por outro lado, em Procura-se um amigo para o fim do mundo são mostradas as reações de várias pessoas, dos meios de comunicação e da população em geral. Acompanhamos os últimos dias de Dodge (Steve Carell), um homem depressivo recém divorciado, e sua vizinha maluca Penny (Keira Knightley) e a forma como ambos lidam com familiares, amigos e antigos relacionamentos frente à certeza da morte.

Ambas as visões de fim do mundo propostas são muito interessantes. Se em Melancolia é amplamente explorado a fundo o psicológico e emocional dos personagens, em Procura-se um amigo para o fim do mundo é discutida a histeria coletiva - como é viver sem um futuro e suas consequências. Os amigos de Dodge, por exemplo, lançam-se a uma constante festa regada à drogas e álcool, onde bebidas são oferecidas à crianças, fogos de artifício são estourados o tempo todo e as regras e padrões sociais são jogadas ao chão. Ao mesmo tempo, percebe-se o esforço de algumas pessoas em tentar manter a sanidade, realizando tarefas diárias, trabalhando em lojas ou limpando casas.

Procura-se um amigo para o fim do mundo

Em Melancolia não existe redenção. O desespero de Claire e a falta de compreensão de seu filho jamais serão solucionados e terminarão apenas com o fim do mundo.O marido de Claire (Kiefer Sutherland) representa o desespero supremo, a impotência do homem frente àquilo que ele não pode mudar ou prever com a ciência. Apenas Justine, com sua loucura e depressão, consegue não se apegar à vida e à importância do mundo, abrindo os braços para uma realidade que pode ter mais sentido do que as convenções sociais e futilidades deste planeta dominado pela arrogância dos homens.

Já o amor pode salvar em Procura-se um amigo para o fim do mundo. Não uma salvação literal, como a esperada por Penny, mas uma redenção espiritual. Dodge descobre nos últimos minutos que existe felicidade e que ela pode valer a pena, apesar de durar pouco tempo. A morte é aceita com maior naturalidade quando a vida é esclarecida.

O fim dos dois filmes é o mesmo. Morte. Em Melancolia a beleza do impacto, já revelada nos primeiros minutos do filme, transforma o Armagedom em uma verdadeira obra de arte, regada à música clássica. Procura-se um amigo para o fim do mundo não se dá ao trabalho nem mesmo de mostrar o cometa. Na verdade, nenhum dos dois filmes está preocupado com efeitos visuais, cenas holywoodianas de impacto precedidas por ondas gigantes e explosões barulhentas, como pode ser visto na maioria dos filmes sobre apocalipse. A beleza das duas obras, cada uma a sua maneira, não está na tragédia do mundo - mas sim na dos seus personagens.

14 de janeiro de 2015

O verdadeiro valor das fotos de celular

Que a fotografia se banalizou não há dúvidas. Afinal, hoje todo mundo é fotógrafo - basta ter um celular. Situações cada vez mais cotidianas e comuns se tornaram objeto de interesse para as lentes, que não param de produzir números exorbitantes de importantíssimas fotos de pratos de comida, cães e gatos, sorrisos e dentes, peitorais, roupas de academia e por aí vai. Auto-retrato virou selfie e selfie, que antes exigia um espelho, agora precisa de um pau. Retratos bem enquadrados viraram coisa do passado. E apesar do meu tom apocalíptico e crítico ao enumerar o avanço indiscriminado da fotografia, devo confessar que consigo ver vantagem em toda essa loucura.

Antes que me detonem e joguem pedras, já deixo avisado que não sou fã de selfies. Nada contra, apenas conheço uma ferramenta bem antiga e útil chamada timer. E, no fim das contas, prefiro tirar fotos de outros assuntos que não seja eu mesma, já que não sou lá muito fotogênica. Mas como qualquer mortal do século XXI tenho várias selfies espalhadas por aí.

Ontem perdi boa parte da minha noite apagando arquivos de foto e vídeo do meu celular. Estava decidida a mandar muita coisa embora, principalmente o que viesse do WhatsApp, para liberar espaço. Descobri que a tarefa não era tão fácil quanto parecia. E que minhas fotos inúteis de coisas cotidianas eram sim, muito importantes.

Foto: Unsplash, by Jay Wennington 


Não consegui apagar a foto de um purê de batatas com frango grelhado - aquela era a primeira refeição que preparava com minhas próprias mãos em uma casa nova. Meu coração me impediu de desfazer de um punhado de fotos borradas, escuras e sem foco de uma festa de casamento e de um  churrasco da turma. Notei que meu cachorro estampa várias imagens, algumas repetitivas e ruins,  mas que diminuem a distância e saudades que sinto dele. Tenho um registro do sítio inacabado de minha família, lá em Minas Gerais, que pretendo comparar com fotos futuras e acompanhar a evolução da construção. Faço uma verdadeira coleção tremida e desfocada de amigos bêbados.

A maioria das fotos são muito ruins. Com exceção de um ou outro por-do-sol, fotografias de paisagens e viagens, todas as imagens tem pouco ou nenhum valor fotográfico. Entendo um pouco de fotografia e acho que não teria coragem de revelar nem um terço delas, mas sei que elas são especiais. 

Antigamente, fotografar era muito caro e exigia um mínimo talento e força de vontade. Os filmes não eram baratos e permitiam que poucas fotos fossem tiradas, as imagens não podiam ser pré-visualizadas e o sucesso de uma foto era um verdadeiro mistério. Comparando com os dias de hoje, posso afirmar que tenho pouquíssimas fotografias de minha infância e que a maioria se refere a datas especiais e comemorativas - momentos em que eu estava bem vestida, feliz, fantasiada, viajando. Posando. Não eram selfies, mas mesmo assim me pergunto se eram momentos reais.

Não posso e nem quero dizer que o cotidiano é menos importante que os momentos especiais. Que o purê de batatas e o bife de frango vale menos que uma viagem à Argentina. Não condenarei as selfies porque já visualizo muita gente fazendo montagens legais com elas daqui a vinte anos, acompanhando o próprio envelhecimento. Cães e gatos e nuvens no céu tem sim muito valor. Amigos bêbados em poses espontâneas fazem qualquer pessoa se sentir feliz instantaneamente.

Nossa relação com a fotografia mudou muito. Perdemos o contato físico do papel, da imagem pregada à parede. Ganhamos um punhado de fotos aleatórias e de qualidade duvidosa nas telas. Ao mesmo tempo, aprendemos a valorizar o cotidiano, o comum. Queremos foto com e sem maquiagem. Fotos da festa e da casa bagunçada. Das paisagens da viagem e do carro lotado de malas. Registraremos tudo.

Mas, por via das dúvidas, aconselho ter sempre um profissional destinado às ocasiões especiais. Nossas fotos borradas e tortas até dão pro gasto. Mas, para falar a verdade, não basta ter um celular para ser fotógrafo.

9 de dezembro de 2014

O estranho (e caro) mundo dos desempregados

Foto: Unsplash, by Caleb George Morris

Fazer parte de estatísticas é uma coisa estranha. Principalmente se você estiver entre os 4,7% da população que compõem aquela tão mal falada classe: a dos desempregados. Logo ao entrar na lista, você começa a ver o mundo de outro jeito. Nem sempre pior, mas com certeza mais... caro.

O mundo é caríssimo para quem não tem um emprego. E não importa se você tem um dinheirinho guardado, se papai e mamãe paga uma conta ou outra, se o seguro desemprego ainda tá valendo. Todos os números viram monstros gigantes com braços cheios de zeros atrás quando você vai ao supermercado. Na verdade, parece que um funcionário fica passando na sua frente nos corredores com aquela maquininha de preços na mãos, aumentando o valor de tudo. E acredite, nunca na vida você irá tanto ao supermercado. Mas por que ficar indo toda hora naquele maldito lugar?

Porque quando não tem um emprego você, obviamente, come demais também. O que fazer quando não se tem mais nada a fazer? Comer, oras bolas. Café da manhã, almoço, lanche, janta, cafezinho, beliscão. E cada mordida vale alguns reais. Cada iogurte é uma facada. Requeijão? Desista. Nada de Negresco. E chore para sempre o leite derramado no McDonalds no domingo. E chore também os quilinhos a mais. Quem deveria engordar eram os ricos e não você, desempregado.

Quando está desempregado, você se torna uma pessoa extremamente metódica. Anota tudo em uma folhinha, nenhum gasto escapa do papel. Até os dois reais da água mineral - não existe distinção de valores. Além disso, aprende a visitar religiosamente sites de ofertas de emprego, decorando todas as vagas que te agradam e que estranhamente nunca mostram resultado nenhum e nunca saem da tela.

Mas nem tudo é tristeza na vida de desempregado. A Cat Power pode resolver fazer um show de graça no metrô, no meio da tarde, enquanto todos os outros mortais estão trabalhando. E você pode passear sem rumo ou até andar de bicicleta por aí. E você pode assistir filmes e mais filmes, além de todos os episódios de sua série favorita - de uma vez. E você pode ler vários livros. E pode visitar todas as exposições gratuitas, conhecer todos os pontos turísticos da cidade. E pode tirar aquela soneca na hora que quiser. E pode malhar. E pode até estudar e aprimorar seus conhecimentos.

Ou pode não fazer nada disso. Com certeza vai estar muito ocupado mandando currículos. E comendo, claro.

7 de dezembro de 2014

Exposição traz projetos e invenções de Leonardo da Vinci

Para quem só se lembra da famosa Monalisa quando escuta o nome de Leonardo da Vinci, dou uma dica: visite logo Leonardo da Vinci, a Natureza da Invenção. A exposição, que está instalada desde novembro na Galeria de Arte do Sesi-SP apresenta mais de 40 peças que recriam projetos do renascentista. E não vá esperando encontrar obras de artes e pinturas, mas invenções e geringonças que vão desde máquinas voadoras até armas de guerra.

O que mais impressiona na exposição é descobrir a quantidade de áreas e ciências em que o gênio do século XV se envolveu. Artes, arquitetura, aerodinâmica, máquinas de manufatura e de guerra, estudos de luz e movimento - Leonardo se aventurou em tudo. E seus desenhos de projetos anteciparam em séculos aviões, submarinos, paraquedas e inúmeros outros inventos modernos. 



Os esboços de Leonardo foram transformados em maquetes e protótipos em 1952 e hoje fazem parte do acervo do Museo Nazionale della Scienza e della Tecnologia Leonardo da Vinci (MUST), de Milão. As peças são bastante interessantes e chegam a ser cômicas se comparadas aos seus equivalentes atuais - exemplos disso é uma roupa de mergulho que mais parece um traje de astronauta e uma espécie de asa delta baseada em asas de morcego.



Vale ressaltar que a exposição é bastante interativa e oferece aos visitantes a chance de entender com as próprias mãos o funcionamento de algumas máquinas, além de permitir um conhecimento mais aprofundados sobre algumas peças e possuir várias instalações multimídia.




A entrada é gratuita e, pelo menos nos finais de semana, a fila na porta pode assustar os curiosos. Se possível, tente visitar durante a semana, quando será possível também participar melhor das instalações interativas - será uma verdadeira batalha conseguir lugar em frente às telas e aos protótipos que podem ser manuseados, se você for em um domingo. 

A exposição fica em São Paulo até maio, quando embarca para Londres. Vale a pena visitar!